V2G Azores – Tecnologia inovadora em ação nos Açores

No final do ano 2019 surgiu um projeto piloto que decorreu durante 90 semanas. Em 2022, foi altura de fazer um balanço. Consulte os resultados deste exemplo real desenvolvido em São Miguel, nos Açores.

Oito entidades públicas e privadas estiveram envolvidas no desenvolvimento de um projeto inovador, tecnológico e sustentável, com o objetivo de demonstrar que, num futuro próximo, a utilização de veículos elétricos não estará apenas destinada à mobilidade de pessoas e bens. Contas feitas, os veículos elétricos podem contribuir para a estabilização da rede elétrica e armazenamento do excesso de energia elétrica produzido durante o período noturno. E chegou-se à conclusão que até podem gerar receita aos seus proprietários! Ou seja, há um mundo novo para descobrir a bordo dos veículos elétricos!

O V2G Azores utilizou 10 veículos elétricos Nissan, testados durante 90 semanas, tendo sido percorridos 126.000 km. Em termos energéticos, foram consumidos 198 MWh de energia e os veículos devolveram à rede 109 MWh de energia elétrica. Números impressionantes visto que a parcela de energia dedicada à principal função de um veículo – que será circular -, acabou por ser muito reduzida. Este facto é bastante interessante do ponto de vista da sustentabilidade e trará discussão e reflexão sobre o papel dos VE na sociedade e na gestão das redes e da energia.

Este projeto piloto envolveu as seguintes entidades/empresas:

  • GALP
  • EDA – Eletricidade dos Açores
  • NISSAN
  • NUVVE
  • INESC TEC
  • ERSE
  • DGEG
  • GOVERNO DOS AÇORES

Esquema do projeto V2G Azores. Imagem: Galp.


Este projeto V2G permitiu testar três aspetos:

  1. Poupança tarifária
  2. Serviços da rede elétrica
  3. Integração de energia renovável na rede elétrica

No primeiro aspeto – poupança tarifária – os carros foram carregados no período noturno de super vazio quando a eletricidade é mais barata (entre as 02h00 e 05h00). Posteriormente, essa energia foi utilizada durante os períodos de hora de ponta, quando a eletricidade é mais cara.

No segundo – serviços da rede elétrica – a intenção foi estabilizar o valor da frequência da rede elétrica. Em Portugal esse valor são 50 Hz. Na imagem seguinte percebe-se qual o resultado dessa estabilização.

Estabilização do valor da frequência da rede elétrica nos 50Hz. Imagem: EDA.


O que isto representa é que os carros ligados ao V2G podem reagir às variações da rede elétrica absorvendo ou injetando energia para manter o mais constante possível o valor dos 50 Hz.

O terceiro aspeto – integração de energia renovável na rede elétrica – sucintamente confirma o que tem sido preconizado há muitos anos, isto é, os veículos elétricos devem ser absorvedores ou armazenadores da energia produzida em excesso durante o período noturno. Neste caso, e em semelhança com o que acontece no território continental, também em São Miguel existe um excesso de produção de energia elétrica a partir dos aerogeradores eólicos. Na prática, o aumento de veículos elétricos na sociedade civil (particulares e empresas) permite que o seu abastecimento aconteça a muito baixo custo.

Em termos práticos, a implementação deste projeto piloto contou com:

  • 10 estações de carregamento com tecnologia da Magnum Cap
  • NUVVE foi o parceiro tecnológico através da utilização da sua plataforma digital de reunião de informação
  • INESCTEC que simulou e analisou os resultados obtidos
  • Governo Regional dos Açores como promotor do projeto
  • ERSE e DGEG

Aprovação do projeto piloto pela ERSE. Imagem: Galp.


Os 10 veículos escolhidos foram da marca Nissan – modelos Leaf e e-NV200 -, em virtude de serem modelos com provas dadas na integração desta tecnologia que permite um comportamento bidirecional das suas baterias, isto é, permite que sejam carregadas e descarregadas através do mesmo cabo quando ligados aos equipamentos V2G.

Veículos Nissan Leaf e e-NV200 ligados aos equipamentos V2G da Magnum Cap. Imagem: EDA.


Dados relativos à utilização das baterias dos veículos.


Plataforma digital da NUVVE que permitiu a verificação dos fluxos de energia por cada veículo. Imagem: NUVVE.


Verificação do SOC (state of charge) e autonomia de alguns dos veículos: Imagem: Galp e NUVVE.


A Galp, através da sua aposta neste projeto piloto, permitiu um estudo profundo de uma tecnologia recente, ainda a dar os primeiros passos em Portugal, mas já com a garantia que será possível num futuro não muito distante abrir caminho para que os utilizadores de veículos elétricos possam, inclusive, obter alguma receita mensal através da integração dos seus veículos numa rede com estas características. No final de janeiro de 2022, na cerimónia final do projeto foi apresentada uma proposta que cada veículo, por mês, poderia ser uma fonte de receita em torno dos 9 €. Este facto abre horizontes. O que é inovador é constatar que os veículos movidos a combustíveis fósseis, pura e simplesmente, não permitem este género de mercado. Ou seja, o V2G pode tornar-se mais um vetor na exploração da mobilidade elétrica, e não é ficção, visto que os Açores serviram de palco para este ensaio!

O V2G estraga os veículos elétricos? A resposta foi não! Não se verificou degradação extra nas baterias dos 10 veículos em teste.

Assista no seguinte filme à explicação e resumo do que foi este projeto piloto:

A versão curta do filme pode ser visualizada aqui:

Reportagem sobre o projeto pela SIC – Futuro Hoje (2022-07-30):