Emissões de CO2. Mito desfeito.

A Federação Europeia de Transportes e Ambiente divulgou o seu mais recente estudo comparativo acerca das emissões de dióxido de carbono (CO2) entre um carro com motor elétrico e um carro com motor de combustão interna.

A Federação Europeia de Transportes e Ambiente (Transport & Environment – T&E) divulgou o seu mais recente estudo comparativo acerca das emissões de dióxido de carbono (CO2) entre um carro com motor elétrico (VE – veículo elétrico) e um carro com motor de combustão interna (VCI – veículo de combustão interna).

Neste estudo são analisadas as emissões de CO2 durante o ciclo de vida de um carro elétrico, desde a exploração para obtenção dos minerais para fabrico das baterias, ao custo energético das mesmas, (se forem fabricadas na China ou na Europa), ao fabrico do carro propriamente dito, e seu consumo energético durante a vida útil.

A conclusão é indesmentível e coincide com as posições que a UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos sempre tem defendido: um carro elétrico é muito mais limpo que um carro a gasóleo ou gasolina! Na União Europeia, os carros com motores a gasóleo ou gasolina emitem três vezes mais CO2 do que a média de emissões dos carros elétricos.

Fonte: T&E’s EV life cycle analysis LCA

Mesmo considerando o pior cenário de utilização de um carro elétrico na Europa, que é na Polónia, onde o fabrico da eletricidade tem uma componente renovável ou de baixo carbono de apenas 15% a 20%, sendo maioritariamente o carvão a fonte de produção de eletricidade, mesmo nesse caso extremo pela negativa, as emissões de CO2 do carro elétrico são cerca de 30% menores que as emissões correspondentes a um carro a gasóleo ou gasolina.

Embora Portugal não tenha sido incluído neste estudo da T&E, o nosso país tem um mix de produção de eletricidade com uma componente renovável muito acentuada, o que permite que a utilização de um carro elétrico seja muito mais eficiente em Portugal do que na média dos países da União Europeia. Anualmente, Portugal produz, em média, mais de 50% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis ou de baixo carbono, sendo que pode chegar a valores diários que ultrapassam os 80% de eletricidade verde.

É assim facilmente constatável o potencial de redução das emissões de CO2 com carros elétricos – aliás, com todos os veículos elétricos: automóveis, ligeiros, pesados, de passageiros, comerciais, autocarros, motociclos, ciclomotores, etc. -, sendo já uma realidade com enorme potencial de crescimento, exige-se aos poderes públicos nacionais e europeus uma aceleração na transição para uma mobilidade de zero emissões, eliminando, o mais tardar em 2035, as vendas de veículos com motores de combustão interna, aliás em linha com o Pacto Ecológico Europeu (Green Deal) anunciado pela Comissão Europeia em dezembro passado. Este estudo é, de facto, uma ferramenta fundamental para que tal venha a concretizar-se.Este é o atual mix de produção de eletricidade na União Europeia e a sua projeção até 2040, com um claro aumento das fontes renováveis ou de baixo carbono, e a respetiva redução do carvão e do gás na geração de eletricidade:

Segundo o recente estudo da T&E, o impacto das emissões de CO2 na produção das baterias para os veículos elétricos varia entre 61 e 106 kgCO2e/kWh, sendo que, no estudo anterior de 2017, esse impacto estava calculado entre 150 e 200 kgCO2e/kWh, o que comprova o avanço tecnológico alcançado no fabrico das baterias. As recentes baterias de iões de lítio que integram a maior parte dos atuais veículos elétricos, têm na sua composição os seguintes elementos: Níquel, Manganésio e Cobalto.

Para a segmentação dos veículos usados neste estudo foram selecionados os carros mais comuns entre os condutores europeus:

Nestes segmentos, o estudo prevê um tempo de vida para os carros pequenos de 170.000 km; os médios 225.000 km; os grandes 280.000 km; os executivos 335.000 km, e os de alta quilometragem 500.000 km.

Principal resultado do estudo: o veículo elétrico é o melhor em todos os cenários!

Emissões de CO2

Para os carros vendidos em 2020, e para um carro elétrico médio, as emissões foram de 90 gCO2e/km durante toda a vida útil, enquanto para um carro com motor a gasóleo as emissões foram de 234 gCO2e/km, e para um carro com motor a gasolina as emissões atingiram as 253 gCO2e/km.

Estas emissões representam para toda a vida útil dos carros, respetivamente, 20 toneladas para o elétrico, 53 toneladas para o carro a gasóleo e 57 toneladas para o carro a gasolina, o que, por outras palavras, quer dizer que o carro elétrico, em toda a sua vida útil, emite 2.7 vezes menos CO2 que um carro a combustão (2.6 vezes menos que o a gasóleo, e 2.8 vezes menos que o a gasolina).

Fabrico das baterias

Quando as baterias são fabricadas com eletricidade verde, (por exemplo as produzidas na Suécia), o carro é fabricado na União Europeia e conduzido na Suécia, estamos perante o melhor cenário de todos, em que o veículo elétrico emite 80% menos CO2 do que o veículo equivalente a gasóleo, e menos 81% de CO2 do que o equivalente a gasolina.

Segundo o estudo, mesmo que se tenha em conta o pior cenário – a bateria construída na China e o seu condutor ser um habitante da Polónia -, que como já vimos é onde a eletricidade produzida tem uma maior quantidade de carvão e gás, apesar de o impacto de toda a sua vida útil aumentar para 41 toneladas de CO2 (ou 182 g/km), o carro elétrico ainda será 22% mais limpo que o correspondente a gasóleo, e 28% mais limpo do que o equivalente a gasolina.

Os veículos elétricos demorarão entre um a dois anos de utilização para atingirem a paridade nas emissões de CO2, recuperando assim a desvantagem inicial na sua produção (incluindo aqui o fabrico da bateria). Neste período, calcula-se que o carro elétrico terá percorrido cerca de 23.000 km. No entanto, se o carro elétrico tiver uma bateria produzida com eletricidade verde e for sempre carregado com a mesma eletricidade verde, a paridade nas emissões de CO2 é atingida em menos de um ano e cerca de 13.000 km.

O que nos reserva o futuro?

Segundo este mesmo estudo, os veículos elétricos, que já hoje emitem muito menos CO2 do que os equivalentes a gasóleo e a gasolina, num futuro relativamente próximo serão ainda mais limpos.

Reciclagem

A quantidade de baterias que são recicladas é muito reduzida por ainda estarem a cumprir a sua missão de tração de um veículo elétrico, sendo de esperar que, com o avançar dos anos, o volume de baterias recicladas aumente significativamente.

Baterias: segunda vida

As baterias que já não sejam eficientes na tração de um veículo elétrico, ainda antes de serem recicladas, terão, (já têm), um papel fundamental como baterias estacionárias, contribuindo para uma melhor e mais eficaz gestão das redes elétricas, quer carregando na rede segundo a disponibilidade do melhor preço da mesma, (tarifas bi-horárias), o chamado carregamento inteligente, (smart charging), quer fornecendo eletricidade à rede elétrica, invertendo o processo. Atualmente, existe um projeto piloto em Porto Santo e existirá brevemente um outro nos Açores; falamos do carregamento bi-direcional (vehicle-to-grid ou V2G).

Os veículos elétricos terão uma vida mais prolongada

Em 2030 comprovaremos que os veículos elétricos duram bastante mais tempo do que os veículos com motores de combustão interna. Por duas ordens de razão: A primeira é que os motores elétricos duram mais tempo que os motores de combustão interna, pois são mais robustos, vibram menos e possuem muito menos peças móveis na sua composição. Em segundo lugar, o prolongamento da vida das baterias, fruto da sua composição e de novas tecnologias incorporadas no seu fabrico, permitirão que os carros elétricos facilmente percorram meio milhão de quilómetros, ou mesmo mais, (já hoje temos alguns modelos da Tesla que atingiram os 500.000 km, e existe mesmo um caso em que foi atingido 1.000.000 de quilómetros, antes de serem substituídas).

Conclusão

O potencial dos veículos elétricos na redução das emissões de CO2 fica bastante claro com este excelente estudo da T&E. Em média, os veículos elétricos são quase três vezes mais limpos do que os veículos equivalentes com motores de combustão interna, quer sejam a gasóleo, quer sejam a gasolina.

Este momento, em que o mundo é fustigado pela pandemia do SarsCov2, o corona vírus que transmite a doença Covid 19, que obrigou a uma paragem da atividade humana como nunca se tinha visto, veio-nos mostrar, embora conjunturalmente, como seriam as nossas cidades e as grandes áreas metropolitanas onde hoje já vivem cerca de 70% dos habitantes da Terra, com céus límpidos, praticamente sem poluição atmosférica e sonora, permitindo-nos ter vidas mais saudáveis e mais amigas do ambiente.

O planeta Terra agradece, os nossos filhos agradecerão.

Fonte: Federação Europeia de Transportes e Ambiente (Transport & Environment – T&E)

Reportagens televisivas sobre a apresentação deste relatório: