De Bragança a Lisboa já não são 9 horas de distância!

Artigo da UVE – Associação de utilizadores de Veículos Elétricos, publicado na edição nº 79 da revista Blueauto de maio de 2024, sobre a viagem entre Lisboa e Bragança num veículo 100% elétrico.


Uma viagem de Lisboa a Bragança, pleno interior norte do nosso país, em veículo 100% elétrico, não seria uma tarefa fácil há pouco mais de dois ou três anos. Facilmente estaríamos acima das 9 horas de distância, como cantavam os Xutos & Pontapés, em 1988.

Atualmente, a realidade é outra. Recorrendo a um veículo de última geração e fazendo uso da rede de carregamento ultrarrápida existente, avançamos para uma experiência repleta de paisagens deslumbrantes e rica em história, com segurança e confiança na possibilidade de cumprir a distância em muito menos tempo.



O Hyundai IONIQ 5 Vanguard+ é um dos veículos 100% elétricos tecnologicamente mais avançados do momento. A arquitetura de 800 V da bateria garante uma compatibilidade e velocidade de carregamento impressionantes e pudémos comprovar isso. Conforto e todas as tecnologias de ajuda à condução estão à nossa disposição, tornando a viagem num passeio em primeira classe.

Castelo de Bragança


A capacidade da bateria de 74 kWh úteis (77,4 kWh no total) e uma autonomia WLTP de 481 km garantiam, à partida, o sucesso da operação. Mas terá sido mesmo assim? Um dos maiores adversários do veículo elétrico é a sua autonomia em autoestrada, pois a constante necessidade de aceleração sem oportunidade de regeneração são um desafio, e sabemos que os valores de autonomia WLTP anunciados pelos fabricantes não têm correspondência no mundo real.

Fizemos um planeamento mínimo, identificando a estação de carregamento multipostos (Hub) de Viseu, operado pela Atlante, como nosso local de eleição para carregar o IONIQ 5, no percurso de Lisboa para Bragança.

A saída foi numa segunda-feira, dia de semana, tempo ameno (com temperatura de 22ºC) e com pouco trânsito em todo o percurso. Recolhemos o veículo perto do aeroporto da Portela pelas 10h10, com a bateria carregada a 100% e iniciámos a viagem.  A primeira etapa foi deixar para trás as colinas e ruas de Lisboa onde o ritmo é baixo e o veículo 100% elétrico – mesmo este IONIQ 5 de dimensões consideráveis – está à vontade.

A viagem foi suave e silenciosa. Percorremos a A1 e o IP3 e, após 285 km, ainda com 21% de carga na bateria e 2 horas 56 minutos de viagem, chegámos ao primeiro objetivo: o Hub de carregamento de Viseu. Nenhum stress durante a viagem, o consumo foi de 20,8 kWh/100km, com uma velocidade média de 97,3 km/h.

Hub de Carregamento de Viseu


Na viagem de ida optámos pelo Hub de Viseu, porque haveria mais garantias de, à chegada, existir um posto livre para carregamento e, principalmente, uma grande variedade de locais para o almoço nas redondezas. Neste Hub da Atlante temos à disposição 14 postos com várias potências de carregamento: 1x 150kW, 3x 60kW e 10x 22kW. Um problema que é recorrente nestes Hub’s são as potências dos carregadores não estarem claramente identificadas. Felizmente, por experiências anteriores, soubemos qual deveríamos escolher. Na dúvida, o utilizador deve identificar onde está o posto de transformação e optar pelo posto que estiver mais perto. Em princípio, estarão no posto de carregamento que disponibiliza maior potência.

Neste Hub, a tarifa de operação no posto de carregamento ultrarrápido está totalmente enquadrada com o que a UVE defende: um custo por kWh (0,30€) durante os primeiros 40 minutos de carregamento, passado esse tempo acrescenta uma cobrança por minuto (0,20€). Optando pelo Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica (CEME) do protocolo EDP / UVE, que possui uma tarifa simplificada, sabemos que pagamos 0,1843€/kWh – independente do horário, potência de carregamento, etc. -, é sempre o mesmo custo, para a tarifa de eletricidade, em todos os postos da rede pública nacional.

O IONIQ 5 carregou em 29 minutos cerca de 49 kWh, que fizeram chegar a carga da bateria até aos 87%, mais do que suficiente para percorrer os 197 km que faltavam até Bragança. O nosso almoço levou perto de uma hora.

À medida que nos aproximamos de Bragança, a paisagem muda gradualmente: as colinas crescem e dão lugar a montanhas em que as estradas serpenteiam. 482 km depois da nossa saída de Lisboa chegámos a Bragança. Com o almoço e pequenas paragens turísticas extra, demorámos muito perto das seis horas. A bateria do Hyundai ainda mostrava 29% de carga.

Novo Hub de carregamento de Bragança – Restaurante Nó da Seara


Em Bragança, estivemos presentes na inauguração da nova estação de carregamento multiposto da Atlante, no Restaurante Nó da Seara. São 2 postos de 300 kW, capazes de carregar quatro veículos a 150 kW cada, muito bem situado junto da saída da A4. Mas a grande novidade foi a primeira experiência de utilização de um terminal de pagamento bancário para ativar a nossa sessão de carregamento.

Infelizmente, rapidamente chegou a hora de regressar a Lisboa. Teremos de voltar a Bragança em breve para explorar a fantástica ciclovia da antiga linha ferroviária do Tua, entre Bragança e Mirandela.

Antiga estação de comboios de Bragança – E-MOB Rede Ciclável das Terras de Trás-os-Montes, antiga linha ferroviária do Tua.


Estava na hora do verdadeiro teste. Saímos a seguir ao almoço pelas 14h10m e com a bateria a 100%. O percurso foi pela A4, A24, IP3 e A1, com 357 km diretos até à área de serviço de Leiria, onde estão instalados os carregadores ultrarrápidos da IONITY. Chegámos ainda com 8% de carga na bateria e a viagem demorou 3h15m, a uma velocidade média de 110 km/h.

A ida à casa de banho e um telefonema (que demorou mais do que esperado), resultaram em vinte e oito minutos de paragem – entre entrada e saída da área de serviço. O IONIQ 5 confirmou as suas “armas”: uma curva de carregamento impressionante, pois em segundos estava a carregar a 196 kW e atingiu um pico de potência de carregamento de 225 kW. Saímos da área de serviço com 88% de carga na bateria, um claro exagero para os quilómetros que faltavam percorrer.

Curva de carregamento Hyundai IONIQ 5 – Fonte: EVdatabase e evkx.net


O custo de carregamento na IONITY, (à data), sem as atrativas opções dos cartões das marcas dos construtores automóveis do consórcio, não é a opção mais económica que a rede pública disponibiliza. Fazendo uso do QRcode do posto carregámos a 0,79 €/kWh, custo total (IVA incluído), mas é possível carregar a partir de 0,59 €/kWh (custo total) numa das muitas apps digitais disponíveis. Numa viagem longa, importa recorrer a carregamentos ultrarrápidos e isso, naturalmente, tem o seu custo associado.

O destino final foi Oeiras. Com um percurso total de 497 km, a distração no carregamento em Leiria fez-nos chegar ainda com 47% de carga na bateria. Seguramente, a paragem poderia ter sido feita em metade do tempo. Chegámos às 19h03, o que resultou num total de 4 horas e 53 minutos para percorrer os 497 km de viagem, a média de consumo foi de 23,4 kWh/100km, mesmo considerando o tempo de paragem para carregamento a velocidade média da viagem ficou nos 101,8 km/h.

De Bragança a Lisboa são menos de 5 horas de distância, para um veículo 100% elétrico, mas esta viagem demonstrou muito mais do que isso: os avanços na mobilidade elétrica são exponenciais. Em pouco tempo passámos do impossível para praticamente o mesmo tempo de viagem de um veículo a combustão! É certo que o carregador ultrarrápido está no local certo, mas dentro de pouco tempo, teremos sempre um no local certo.

Claro que um veículo a combustão até pode percorrer os 500 km desta viagem sem parar, mas, questões de bexiga e segurança à parte, serão os quinze minutos de paragem forçada para carregamento um problema real? A distância entre cidades não deve ser apenas uma mera medida de quilómetros e velocidade, deve também respeitar um compromisso com a sustentabilidade e a preservação do ambiente. O futuro próximo garante ainda mais, se repetirmos esta viagem dentro de dois a três anos, como será?

Para qualquer questão adicional consulte www.uve.pt ou contacte-nos através do email [email protected]

Consulte a edição digital da Revista Blueauto, nº 79

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