TERRA 2.0 e a Mobilidade Elétrica

Não existe um Planeta B!


Henrique Sánchez
Presidente da UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos
Artigo Mensal de Opinião da Revista Blueauto


No artigo anterior abordei várias consequências da paragem brutal que as atividades humanas estavam a provocar na economia e, consequentemente, nas cidades, transportes aéreo, marítimo e terrestre/rodoviário, assim como os seus efeitos na redução dos níveis de poluição atmosférica e sonora das grandes áreas metropolitanas:

  • Queda abrupta das vendas de automóveis à exceção dos veículos elétricos que foram os únicos que aumentaram as vendas – (https://www.uve.pt/page/vendas-ve-03-2020/);
  • Paragem quase total da aviação comercial. Cerca de 90% dos aviões estão em terra;
  • Paragem dos navios de cruzeiro;
  • Redução em cerca de 80% de todos os transportes rodoviários;
  • Interrupção da atividade industrial em cerca de 50%;
  • Queda brutal do consumo de bens não essenciais.

Esta travagem brusca de toda a economia mundial, com mais de 1.000.000.000 (mil milhões) de seres humanos recolhidos nas suas casas, também permitiu, como referido no artigo anterior, que a fauna e a flora avançassem para terrenos antes ocupados pelos humanos.


O retorno da Natureza

Só que já não são só os patos, as ovelhas, os javalis e os peixes. Recentemente, registou-se a presença urbana de ursos, cangurus, pinguins, pumas, coiotes e muitas outras espécies.


Puma em Santiago do Chile

Veado no Sri Lanka


Coiote em São Francisco

Patos no Cais das Colunas em Lisboa


Todos podemos confirmar como o ar está mais limpo. Quando não existem nuvens é notória a vivacidade do azul do céu, ou à noite a visibilidade das estrelas. As cores, em geral, estão mais vivas. O silêncio das cidades só é quebrado pelo constante chilrear dos pássaros um pouco por todo o lado.

Temos tido mais tempo para refletir sobre o caminho que nos trouxe até aqui. Deparámo-nos com uma sociedade profundamente desigual, injusta, com ênfase no fútil, no efémero, no descartável, na perda de valores e na ganância pelo lucro fácil.

De repente, constatamos que as nossas vidas não dependem dos comentadores desportivos, das telenovelas a metro com que nos inundam as nossas casas, dos programas de debate sem fim e sem sentido, da publicidade compulsiva para despertar o consumo desnecessário, mas sim dos serviços de saúde, dos médicos, dos enfermeiros, de todos os profissionais de saúde, dos serviços de limpeza nos hospitais, dos serviços de limpeza urbana, dos funcionários dos supermercados e das mercearias de bairro, dos funcionários das farmácias, dos agentes de segurança, dos motoristas, dos professores e restantes funcionários das escolas, colégios e universidades, dos investigadores, dos cientistas, e de tantos outros que nos permitem continuar a ter eletricidade, água, gás e telecomunicações nas nossas casas, e todos os que nos podem satisfazer as nossas necessidades mais básicas nesta fase de pandemia: cuidados de saúde e alimentação.

Sendo uma situação insustentável, ela permite-nos pensar no futuro. Em que sociedade vamos querer viver, e o que podemos fazer para participar nessa mudança?


A poluição atmosférica e o Covid-19

Há vários estudos que têm sido divulgados que relacionam a maior incidência dos casos de covid-19 com a poluição atmosférica.

Face à comprovação inequívoca de que a redução drástica do tráfego urbano rodoviário e aéreo (face à proximidade dos aeroportos às grandes urbes metropolitanas), a qualidade do ar melhorou como nunca tínhamos podido constatar, podemos antecipar o que seriam as cidades exclusivamente com carros elétricos, motas elétricas, tuk-tuk elétricos, autocarros elétricos, enfim, com todos os meios de transporte eletrificados, quer coletivos quer individuais, quer públicos quer particulares. Para começar, as cidades seriam silenciosas e sem poluição atmosférica. Além disso, com muito menos tráfego, fruto das várias soluções de teletrabalho e de tele-ensino que todos estamos a viver, com a alternância dos horários de trabalho na indústria, no comércio, no ensino, nos serviços públicos e privados, mas também das inúmeras reuniões que podem ser efetuadas sem a nossa presença física. O que pouparíamos em viagens e em tempo desperdiçado? E aqui falamos também de reuniões internacionais das empresas mas também das instituições. Quantas toneladas de CO2 seriam evitadas? Quanto tempo nos sobraria para mais trabalho, mas também para mais lazer e mais família?


Terra 2.0

Os atuais utilizadores de veículos elétricos, carros ou motas, e que tenham a possibilidade de carregá-lo na própria residência, não estão expostos à necessidade que os proprietários de veículos com motor de combustão interna (sem outra opção) têm de se abastecer em postos públicos de combustíveis.

Urge a eletrificação de todos os meios de transporte rodoviário, dar primazia à rede ferroviária elétrica e de alta velocidade para viagens continentais em detrimento das viagens aéreas altamente poluentes, que ficariam reservadas para os percursos intercontinentais. As verbas destinadas às grandes obras aeroportuárias (ampliações dos aeroportos existentes e novos aeroportos) devem ser canalizadas, de imediato, para a infraestrutura ferroviária de alta velocidade. Não tenhamos ilusões que a atividade aérea não voltará a ser o que foi até por motivos de saúde pública.


Europa, janeiro 2020

Europa, março 2020


Localmente, as autarquias devem avançar para a eletrificação das suas redes de transportes públicos, ou quando essas redes forem privadas avançarem com prazos para a sua efetivação pelas empresas concessionárias.

No prisma nacional, os incentivos à aquisição de veículos elétricos, através do Fundo Ambiental (https://www.fundoambiental.pt/avisos-2020/mitigacao-das-alteracoes-climaticas/incentivo-pela-introducao-no-consumo-de-veiculos-de-baixas-emissoes-2020.aspx), devem satisfazer todas as candidaturas dos particulares, cuja dotação se tem esgotado antes do final de cada ano. No caso das empresas, devem manter a atual dotação, pois além deste incentivo ainda beneficiam do reembolso do IVA e de isenção da tributação autónoma.

Devem ser fomentados todos os projetos e iniciativas para o fabrico de veículos elétricos em Portugal, bem como de fábricas de baterias, para veículos elétricos.

Toda a produção de eletricidade verde através de painéis fotovoltaicos, parques eólicos e geotérmicos deve ser incentivada e desburocratizada, quer para particulares com auto consumo em casa e no veículo elétrico, quer a nível empresarial.

O acesso aos centros das grandes cidades deve ser restringido. Lisboa já aprovou restrições aos veículos com motores de combustão interna, quer sejam a gasóleo ou gasolina, para garantir a qualidade do ar aos seus habitantes, trabalhadores e visitantes (https://www.uve.pt/page/lisboa-com-menos-carros-a-partir-do-verao-2020/).

Não queremos voltar à “normalidade” pois foi essa mesma “normalidade” que nos trouxe até aqui. Queremos e devemos reiniciar: TERRA 2.0!

Vamos acelerar o cumprimento dos objetivos dos acordos, dos programas e das diretivas com as quais o governo português se tem comprometido:

Este corona vírus, o SarsCov2, que provoca esta doença pandémica, o covid-19, pode servir-nos como alerta e aviso para o caminho que toda a Humanidade estava a seguir. Aproveitemos esta época de enorme privação como uma oportunidade para avançarmos para um reinício, e mudarmos comportamentos com opções mais sustentáveis. Está nas mãos de cada um de nós fazê-lo! Vamos reiniciar? Por uma TERRA 2.0!

Pela eletrificação de todos os meios de transporte!

Por cidades mais amigas das pessoas e do ambiente!

Pela descarbonização da economia!

Por uma economia mais sustentável!

Pela nossa saúde!

Por um futuro para os nossos filhos!

Não existe um planeta B!


A versão digital do nº 31 da revista Blueauto, de maio de 2020, será distribuída gratuitamente a todos os Associados UVE com a quota de 2020 ativa, na sequência da parceria estabelecida entre a UVE e a Blueauto.