Vou comprar um carro elétrico! Onde carregar? Como carregar?

Artigo publicado na edição nº 52 da revista Blueauto de fevereiro de 2022, onde esclarecemos alguns dos aspetos essenciais para quem adquiriu recentemente ou pretende adquirir um Veículo Elétrico e desconhece como funcionam os carregamentos fora de casa.


Henrique Sánchez
Presidente do Conselho Diretivo da UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos
Artigo Mensal de Opinião na Revista Blueauto


Se vai comprar um carro elétrico, o primeiro em que deve pensar é, onde vou carregar o meu carro elétrico?

Bom, a melhor opção é carregar na própria residência, mais cómodo, seguro e económico. Muito mais económico se tiver um contrato com o seu fornecedor de eletricidade com uma tarifa bi-horária (das 22h00 às 08h00, por exemplo).

É mais cómodo porque carrego à noite quando regresso a casa e faço-o como quando carrego o telemóvel ou o portátil, ligo-o a uma tomada e já está. Essa tomada pode ser uma simples tomada doméstica (schuko), uma tomada industrial (azul/CEE), ou um carregador de parede (Wallbox).

É mais seguro, pois estou em casa e mais simples não é possível, algo que nunca poderia ser realizado com um carro com motor de combustão interna, pois não posso ter gasolina ou gasóleo em minha casa.

Por último, é mais económico, pois utilizando exclusivamente equipamentos dos quais sou proprietário e um tarifário que já tenho contratado com o meu fornecedor de eletricidade, não necessito de realizar mais qualquer gasto.

Este comparativo mostra-nos quão mais económico pode ficar o carregamento quando realizado em nossas casas.

Mas, e se eu não tiver possibilidade de carregar em casa? Como fazer?

Se não puder carregar em casa irá proceder como já hoje o faz com um veículo com motor de combustão interna. Terá que se deslocar a um Posto de Carregamento ou a uma Estação de Carregamento para Veículos Elétricos, que poderá estar na via pública, num estacionamento de um espaço comercial ou numa Estação de Serviço de uma autoestrada, por exemplo.

Existem carregadores normais em AC (corrente alterna), que carregam até 22 kW de potência. Estes carregadores não possuem cabos e por isso teremos que usar o cabo fornecido com o carro (geralmente, um cabo designado por Tipo 2 ou Mennekes).

Outra alternativa são os carregadores rápidos em DC (corrente contínua) que podem ser rápidos, até 50 kW, super-rápidos, de 50 kW a 150 kW, ou ainda ultrarrápidos, aqui com potência superior a 160 kW, podendo, atualmente, atingir potências de 350 kW. Neste caso, os cabos estão sempre no próprio posto e apenas temos que escolher o cabo que necessitamos para o nosso carro: CHAdeMO ou CCS2. Nalguns postos rápidos poderá existir um cabo para carregamento em AC até 43 kW.

Estas potências são importantes para melhor escolhermos que cabo utilizar e quando será mais eficiente e mais económico usar um ou outro. A potência do posto, combinada com a capacidade de carregamento do próprio carro, que varia conforme o modelo (BEV – Battery Electric Vehicle, ou PHEV – Plug-In Hybrid Electric Vehicle), sendo que mesmo nos carros 100% elétricos (BEV) o carregador interno do carro também pode variar segundo a marca e o modelo, e influenciará a velocidade do carregamento, podendo originar faturas bem pesadas.

Inúmeros fatores podem ter influência no carregamento, como sejam a temperatura ambiente, a temperatura da bateria e, (muito importante), a percentagem da carga da bateria no momento do carregamento.

Analisemos cada um destes fatores em mais detalhe. A temperatura interfere com a química das baterias, tornando-as “mais lentas” no inverno e “mais rápidas” no verão. Ou seja, o frio provoca uma diminuição da autonomia e o calor um aumento da autonomia. Associado a estas variações da autonomia, se uma bateria estiver fria, então carregará mais lentamente e o seu carregamento completo demorará mais tempo. O inverso aplica-se a uma bateria que esteja no intervalo ótimo de temperatura (20-30 ºC). Por estes fatores, os utilizadores verificam no verão que os carros percorrem mais quilómetros e carregam mais depressa.

Sobre o fator seguinte – a percentagem da carga da bateria -, importa dizer que há um intervalo de carregamento ótimo para carregar um veículo elétrico, localizado entre os 20 e 80 %. Neste intervalo os carros conseguem extrair dos carregadores rápidos a maior quantidade de energia no menor tempo possível, isto é, conseguem carregar com valores mais elevados de potência. No gráfico seguinte verificamos isso observando que a linha azul permanece junto do valor dos 50 kW entre os valores de 20% a 80%. Então qual será o motivo para que a potência diminua abaixo dos 20% e acima dos 80%? Abaixo dos 20% a bateria ainda não tem a carga ideal para receber energia em pouco tempo e por isso alguma da energia recebida servirá para preparar a bateria para as percentagens superiores. Acima dos 80%, podemos lembrar-nos de uma comparação muito simples com o enchimento de um copo de água, isto é, à medida que o copo vai ficando cheio temos que diminuir o fluxo de água, pois caso contrário a água extravasa… Nas baterias é semelhante. À medida que nos aproximamos dos 100% (carga completa), o valor da potência diminui de modo que o carro ajuste lentamente a quantidade de energia que está a entrar para a bateria. E por isso é que a linha azul decresce a partir do valor 80%. Importa frisar que a utilização dos postos de carregamento rápido é cobrada ao minuto, e por isso se não tivermos em conta todos estes fatores estaremos a fazer uma utilização desadequada desses equipamentos e isso traduzir-se-á em faturas mais caras no final do mês.

O último aspeto da utilização dos postos de carregamento da rede pública frisa sobre o que é que o utilizador tem que fazer para conseguir carregar na rede pública? Há dois procedimentos possíveis: efetuar um contrato com um CEME (Comercializador de Eletricidade para a Mobilidade Elétrica) de modo que lhe seja enviado um cartão de carregamento, ou então utilizar uma aplicação de telemóvel para efetuar os carregamentos do seu carro elétrico. Qualquer uma das soluções permite que um utilizador de veículo elétrico se desloque a qualquer posto da Rede Pública (independentemente do seu OPC – Operador de Ponto de Carregamento) e ao passar o cartão no carregador, ou utilizando a APP no local o equipamento inicie o carregamento do seu carro. No final do carregamento, o utilizador apenas terá que passar novamente o cartão junto do posto, ou dar instrução na APP para que o carregamento termine.

A escolha entre utilizar um cartão físico ou uma aplicação é do utilizador mediante a oferta atual que existe no mercado da mobilidade elétrica e também de acordo com a qual se sente mais confortável.

Em resumo, carregar em casa será sempre a solução preferível, mas caso tal não seja possível existe, atualmente, uma Rede Nacional de Carregamento de Veículos Elétricos que conta já com mais de 1000 postos de carregamento rápido, super-rápido e ultrarrápido (DC) e 6000 postos de carregamento normal (AC). Qualquer um desses equipamentos da Rede Pública está acessível a quem possua um cartão dos atuais 27 CEME, utilize uma das APP disponíveis no mercado ou tenha um contrato com uma das Redes Privadas existentes (Rede de SuperCarregadores Tesla exclusiva para veículos da marca, Rede Continente Plug & Charge exclusiva para clientes da APP Continente, e outras como a Power Dot ou a Mobiletric que possuem estações de carregamento exclusivas para frotas de empresas, de táxis ou de TVDE’s). Estas redes de carregamento complementam assim a oferta da Rede Pública de Carregamento sob gestão da Mobi.E.

Em casa ou na rua, é fundamental realizar a transição energética o mais depressa possível e utilizar um veículo elétrico em vez de um veículo com motor de combustão interna!

Lisboa, 3 de fevereiro de 2022
Henrique Sánchez

Consulte a edição digital da Revista Blueauto, nº 52

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