Artigo de opinião de Henrique Sánchez, Presidente Honorário da UVE – Associação de utilizadores de Veículos Elétricos, para a edição nº 100 da revista Blueauto de março de 2026, sobre a evolução da Mobilidade Elétrica em Portugal.


Henrique Sánchez
Presidente Honorário da UVE Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos
Artigo Mensal de Opinião na Revista Blueauto
Portugal foi dos primeiros países da Europa e do Mundo a aderir ao esforço de eletrificação dos transportes rodoviários, tendo começado com as duas rodas, motociclos e ciclomotores, mais tarde com os veículos ligeiros de passageiros e de mercadorias e atualmente no transporte pesado de passageiros e de mercadorias onde existe ainda um longo caminho a percorrer. Portugal foi também dos primeiros países a lançar uma Rede Pública de Carregamento para veículos elétricos, tendo mesmo sido na autoestrada A5 que liga Cascais a Lisboa inaugurado o primeiro posto de carregamento rápido (PCR), na altura de 50 kW, em toda a Europa. Foi no dia 4 de novembro de 2010.

1º carregador rápido (50 kW) instalado em toda a Europa
A 29 de junho de 2010, já tinha sido inaugurado o primeiro posto de carregamento normal (PCN) em Lisboa pertencente à Rede Pública de Carregamento de veículos elétricos, a primeira na Europa. Foi a Rede Piloto da Mobi.E que incluía postos de carregamento normal de 3.7 kW e postos de carregamento rápido de 50 kW.
No dia 8 de agosto de 2016 foi inaugurado o 1º Corredor de Carregamento Rápido da Rede Piloto que ligou Lisboa a Loulé, com postos rápidos (50 kW) em Palmela, Aljustrel e Loulé, na A2, sentido norte – sul e postos rápidos em Loulé, Aljustrel e Alcácer do Sal no sentido sul – norte. Estava dado o primeiro passo para as viagens por auto estrada em Portugal.
No dia 31de julho de 2017 iniciaram-se os pagamentos na Rede Pública, portanto sete anos após a sua inauguração. Este período de gratuitidade da utilização dos postos de carregamento na Rede Pública foi um incentivo para muitos cidadãos aderirem à mobilidade elétrica num período inicial de incerteza face ao seu futuro, sendo que nós na UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos nunca tivemos dúvidas do futuro da mobilidade elétrica. Quando os primeiros automóveis elétricos começaram a ser comercializados em Portugal, muitos foram os detratores desta inovadora tecnologia difundindo inúmeros mitos que fizeram lembrar os mitos e a campanha de descrédito que acompanhou o lançamento dos primeiros automóveis com motores de combustão interna no final do século XIX em detrimento da mobilidade existente até então que eram os cavalos e as carruagens.

Cartaz do fabricante de carruagens McLaughlin ridicularizando o aparecimento do automóvel
Os primeiros a aderirem à nova tecnologia foram fundamentalmente cidadãos interessados em tecnologia, inovação, ambientalistas, etc., foi um período de intenso trabalho de desmistificação de todos os mitos e mentiras que eram difundidos na comunicação social tradicional e nas redes sociais. Um a um os mitos foram sendo esclarecidos e eliminados, atividade que hoje, em 2026, ainda prossegue.
Foi um período em que era fundamental, tal como ainda hoje, motivar as pessoas a experimentarem um veículo elétrico. Quem experimenta confirma a grande superioridade da tecnologia dos motores elétricos face à tecnologia dos motores de combustão interna movidos a combustíveis fósseis. O motor elétrico é muito mais eficiente utilizando muito menos energia do que um motor a combustão interna para percorrer a mesma distância, é cerca de cinco vezes mais eficiente. Enquanto o motor de combustão interna só aproveita cerca de 20% da energia produzida para movimentar o veículo, o motor elétrico aproveita cerca de 95% dessa energia. Chama-se Eficiência Energética e o nosso bolso agradece.
O custo total de utilização dos veículos elétricos é também muito mais económico do que os equivalentes com motor de combustão interna. O motor de combustão interna tem cerca de 2.000 peças móveis enquanto um motor elétrico tem cerca de 20 peças móveis, 1% apenas, necessitando de muito menos manutenção e substituição de peças, além de não utilizar filtro e óleo do motor, velas, juntas, etc. A estes reduzidos custos de oficina e de pós-venda do veículo elétrico acrescem os benefícios fiscais, isenção do IUC (Imposto Único de Circulação), do ISV (Imposto sobre Veículos), IVA (Imposto de Valor Acrescentado) no caso das empresas, isenção ou redução do custo de estacionar em zonas tarifadas aplicado por diversos municípios, etc. O custo para percorrer 100 km também é mais reduzido para os veículos elétricos, especialmente quando o carregamento pode ser efetuado em casa ou no local de trabalho, quando a empresa o disponibiliza. Carregar o veículo elétrico na Rede Nacional de Carregamento pode reduzir a poupança, mas é sempre uma poupança.

A esta poupança acresce ainda a possibilidade de podermos produzir eletricidade no próprio veículo através da travagem regenerativa. Cada vez que desaceleramos ou travamos o veículo, o motor elétrico produz eletricidade que armazena na bateria. Como todos sabemos não é possível produzir gasolina ou gasóleo nos veículos com motor de combustão interna. Em ambiente urbano é relativamente fácil produzir até cerca de 20% de toda a eletricidade utilizada pelo motor elétrico, esta é uma poupança poucas vezes referida, mas que tem um impacto muito relevante no custo total de utilização do veículo.
A mobilidade elétrica em Portugal tem registado um crescimento simultaneamente, rápido e consolidado, tendo nestes últimos 6 anos, as vendas dos veículos 100% elétricos (BEV – Battery Electric Vehicle) ligeiros de passageiros, saltado dos 5.4% de quota de mercado para os 23.2%, ultrapassando as vendas dos veículos com motores a gasóleo (5.8%) em queda muito acentuada e praticamente igualando a quota dos veículos com motores a gasolina (24.5%), também estes com uma queda pronunciada nestes últimos 6 anos.


No passado mês de janeiro, Portugal registou mais recordes nas vendas de novos veículos elétricos ligeiros de passageiros, 4.341 veículos 100% elétricos (25,78%). No mesmo período venderam-se 2.651 veículos com motores a gasolina (15,74%) e 721 veículos com motores a gasóleo (4,28%).
Considerando todas as categorias de veículos, ligeiros, pesados, de passageiros e de mercadorias, novos e usados, em janeiro de 2026 venderam-se praticamente os mesmos veículos 100% elétricos, 7.537 unidades, do que em todo o ano de 2020, 7.872. Em apenas seis anos, num único mês venderam-se tantos veículos 100% elétricos como se tinham vendido em todo o ano de 2020. Um crescimento assinalável atingindo o chamado “ponto de não retorno”, a mobilidade elétrica veio para ficar, os veículos elétricos vão triunfar, por tudo o que já foi dito e porque simplesmente são muito superiores aos equivalentes com motores de combustão interna.
Toda a informação sobre estatísticas da mobilidade elétrica pode ser consultada no Observatório da Mobilidade Elétrica (https://observatorio.uve.pt/v1/).
Duas notas finais, uma refere-se à volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis. Nestes últimos quatro anos desde que em 2022 se iniciou a guerra na Ucrânia o aumento dos preços do petróleo e do gás natural têm sido muito significativos, situação que se repete agora com a guerra no Médio Oriente, com novos aumentos que ainda poderão ser agravados nos próximos tempos. Portugal que já produz cerca de 70% da sua eletricidade através das energias alternativas, pode e deve acelerar essa produção, tornando-se mais independente energeticamente, bem como incentivar e apoiar a eletrificação mais rápida de todos os transportes por forma a mitigar as consequências que já se avizinham no horizonte. Aos cidadãos cabe fazerem contas e também se protegerem desta volatilidade eletrificando a sua mobilidade.
A segunda nota refere-se ao ambiente e às alterações climáticas que a cada ano se fazem sentir mais intensamente no território português. As alterações climáticas confirmadas e fundamentadas por diversos cientistas, climatologistas e meteorologistas, que nos habituámos a ver em latitudes muito distantes da nossa e em países do chamado “terceiro mundo”, atualmente designado por “sul global”, estão aí, sob a forma de incêndios, chuvas intensas, tempestades e ventos ciclónicos nunca observados em Portugal.
Um dos maiores contributos para a intensificação e o agravamento das alterações climáticas é a emissão de CO2 e de gases com efeito de estufa (GEE), que a Humanidade emite cada vez em maior quantidade para a atmosfera terrestre. Todos e cada um de nós pode contribuir para a mitigação dos efeitos das alterações climáticas, reduzindo a emissão destes gases, substituindo os seus veículos com motores de combustão interna por veículos com motores elétricos. É uma pequena contribuição, mas é no conjunto dos grãos de areia que são constituídas as praias, nunca esquecer grão a grão…
Termino com um agradecimento à comunicação social que desde a primeira hora divulgou, informou e esclareceu o que era “isto” da mobilidade elétrica, quando muito poucos sabiam da sua existência. Foi um caminho que percorremos em conjunto, contra todas as dificuldades que se nos deparavam.
Uma palavra de agradecimento à Blueauto revista especializada em automóveis sustentáveis quando tal era uma ousadia, ao seu Diretor, Francisco Vieira, a toda a equipa redatorial um agradecimento muito sincero na passagem deste 10º aniversário e da publicação do seu número 100. Que venham muitos mais anos e muitos outros 100 exemplares.
É a Mobilidade Elétrica!
Pela redução do consumo de combustíveis fosseis!
Pela eletrificação dos transportes rodoviários!
Não existe Planeta B!


Consulte a edição digital da Revista Blueauto, nº 100

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