Artigo da UVE – Associação de utilizadores de Veículos Elétricos, publicado na edição nº 102 da revista Blueauto de maio de 2026, sobre o primeiro Data Fórum, um evento dedicado à divulgação da evolução do Observatório da Mobilidade Elétrica – o portal de análise de dados das vendas de veículos elétricos, custo de operação e rede de carregamento em Portugal, desenvolvido pela UVE.

Treze meses depois do lançamento do Observatório da Mobilidade Elétrica (O-ME), a UVE – Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, promoveu, no passado dia 8 de maio, em Oeiras no Templo da Poesia, o Observatório da Mobilidade Elétrica (O-ME) Data Fórum 2026. A ideia inicial era partilhar o que foi a evolução do O-ME ao longo destes 13 meses de vida. Avaliar o que foi bem feito, o que deve ser melhorado e que caminhos devem ser seguidos no futuro, mas o encontro acabou por se transformar numa discussão mais abrangente do setor da mobilidade elétrica em Portugal.
Um evento privado aberto a profissionais do setor e naturalmente a todos os associados da UVE, teve uma adesão que superou todas as expectativas, com a lotação da sala a ultrapassar os 120%, confirmando aquilo que se sente no terreno: a mobilidade elétrica vive momentos onde todos os intervenientes de mercado vivem sedentos de informação atualizada e necessitam tomar decisões que impactam o futuro, na posse de todo o conhecimento.
Mais do que uma apresentação de estatísticas, o fórum serviu para analisar a realidade da rede pública, discutir a qualidade dos dados disponíveis e refletir sobre os desafios regulatórios que irão marcar o setor até à entrada plena do novo modelo de mercado, prevista, nesta altura, para 1 de janeiro de 2027.

No contexto do período de transição que atravessa a mobilidade elétrica, o O-ME Data Fórum 2026 dedicou a sua primeira parte a intervenções técnicas que procuraram mapear a “ansiedade de transição” gerada pelo novo quadro legal do DL 93/2025 e apresentar soluções para facilitar esta mudança.
Depois de uma curta apresentação e enquadramento do evento, realizada por Pedro Faria da UVE e Carlos Ferraz da APOCME, com a moderação de Sergio Magno (Público), seguiram-se 3 apresentações. A Mobi.E, pela voz de António Ferrão, delineou a metamorfose da entidade gestora da rede para facilitadora de mercado e centro de dados, sublinhando que o roaming passará a ser opcional num modelo de maior liberdade contratual. A Hubject, por Dah Nahem, trouxe a perspetiva da interoperabilidade europeia e da maturação tecnológica do Plug & Charge, enquanto a Solidstudio, através de Paweł Małkowiak, alertou para os riscos operacionais associados às migrações de software previstas para o final de 2026.

Dados disponíveis em Observatório da Mobilidade Elétrica
O Observatório da Mobilidade Elétrica como ferramenta de transparência
Na segunda parte do evento, Bruno Fonseca, Manuel Reis e Telmo Azevedo da UVE, conduziram a apresentação dedicada ao Observatório da Mobilidade Elétrica. Desde o primeiro dia, o objetivo do O-ME foi simples: transformar dados dispersos em informação útil e credível para utilizadores, operadores, municípios e decisores políticos. Em parceria com a ACAP e a Entidade Gestora da Mobilidade Elétrica (Mobi.E), o Observatório passou o último ano a recolher, tratar e interpretar informação sobre três áreas fundamentais: Evolução das vendas de veículos elétricos; custos de carregamento; o estado e disponibilidade da rede pública de carregamento.
Ao longo destes treze meses, o O-ME recebeu várias evoluções importantes, permitindo hoje análises muito mais detalhadas da realidade nacional. Entre as funcionalidades introduzidas destacam-se: segmentação das vendas entre particulares e empresas; mapas de calor que mostram os períodos de maior utilização da rede; análise da relação entre preço e utilização dos postos; monitorização de postos sem atividade durante longos períodos.
Com quase 5.000 utilizadores distintos e uma taxa de retorno superior a 80%, o Observatório consolidou-se como uma referência nacional para compreender a evolução da mobilidade elétrica em Portugal.
Um dos marcos simbólicos destacados no Fórum foi o facto de todos os 308 municípios portugueses passarem finalmente a ter, pelo menos, um posto de carregamento público disponível. O último município a entrar na lista foi Santa Cruz das Flores, nos Açores. Embora este seja um passo importante, a existência de infraestrutura não significa automaticamente qualidade de serviço.
Durante o último ano, o O-ME demonstrou com dados reais vários episódios de como a rede continua vulnerável a fatores externos. Casos de vandalismo, furtos de cabos e falhas de energia tiveram impacto direto na disponibilidade dos postos.
Também fenómenos meteorológicos extremos demonstraram a importância crescente da mobilidade elétrica como infraestrutura crítica. Através dos dados do O-ME foi possível acompanhar as quebras abruptas de disponibilidade provocadas por falhas de alimentação elétrica.

Dados disponíveis em Observatório da Mobilidade Elétrica
O problema silencioso: a qualidade dos dados
Um dos temas mais debatidos no evento foi a qualidade da informação fornecida pelos operadores. A UVE tem vindo a realizar um trabalho contínuo de validação e correção de dados da rede pública, identificando inconsistências que afetam diretamente a experiência dos utilizadores.
Entre os problemas mais frequentes encontram-se as coordenadas geográficas incorretas, postos associados ao município errado, informação incompleta ou errada sobre potência disponível das tomadas e tarifários desatualizados ou mal configurados.
A qualidade dos dados deixou de ser um detalhe técnico. Hoje, é um fator crítico para a confiança dos utilizadores na rede pública. Mensalmente a UVE, através dos dados levantados pelo O-ME envia relatórios aos Operadores dos postos de carregamento solicitando a correção dos problemas detetados.
O novo ranking dos municípios
Uma das novidades mais relevantes apresentadas no Fórum foi o sistema de avaliação dos Municípios criado pelo O-ME.
Através de indicadores como tomadas por habitante, cobertura territorial, disponibilidade de carregamento rápido, distribuição geográfica dos postos, capilaridade por freguesia, entre outros, o O-ME passou a classificar os municípios numa escala de uma a cinco estrelas, criando mesmo um ranking nacional entre os 308 municípios de Portugal.
Os dados revelam diferenças muito significativas entre municípios. Alguns investiram estrategicamente na expansão da infraestrutura pública e apresentam hoje redes equilibradas e bem distribuídas. Outros continuam excessivamente dependentes de postos instalados em centros comerciais ou parques privados, deixando zonas residenciais sem cobertura adequada.
A UVE pretende criar e enviar relatórios personalizados a todos os municípios de Portugal, dando nota da sua classificação específica e apresentando uma análise de como se comparam com os municípios limítrofes. Este relatório será acompanhado por um guia de melhores práticas, visando alertar e incentivar os decisores locais a promoverem o progresso da mobilidade elétrica nos seus territórios.
Um curioso exemplo referido foi o efeito observado em municípios onde houve reforço significativo da infraestrutura: assim que os postos surgem, a utilização aumenta quase imediatamente. A conclusão é clara, criem a infraestrutura que os Utilizadores aparecem. Municípios onde são adicionados 200 ou mais postos de carregamento, num ano viram a sua taxa de ocupação global subir vários pontos percentuais, ou seja, não houve diluição pelos novos postos, houve um crescimento efetivo de novos Utilizadores.
Um outro anúncio importante foi a expectável expansão internacional do Observatório da Mobilidade Elétrica. Graças a uma parceria com a plataforma REVE, o O-ME conta num futuro próximo passar a incluir dados sobre a rede espanhola de carregamento, criando-se assim um observatório ibérico, capaz de comparar evoluções e compreender os diferentes mercados.
O O-ME Data Fórum 2026 deixou uma mensagem muito clara: A transição para o novo modelo previsto para 2027 será um dos momentos mais importantes da história recente da mobilidade elétrica nacional. E será precisamente aí que o papel do Observatório poderá tornar-se ainda mais relevante: fornecer transparência, escrutínio e informação rigorosa num setor em rápida transformação.
Os dados completos e o ranking atualizado dos municípios podem ser consultados no portal oficial do Observatório da Mobilidade Elétrica – observatorio.uve.pt.

Consulte a edição digital da Revista Blueauto, nº 102

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